Por JB da Silva

Que fique muito claro e explícito que a Ciência Oaieme, o Repositório Mágico das Inteligências Múltiplas não obedece as normas da Gramática da Língua Portuguesa e utiliza um alfabeto próprio constituído de 24 letras .

Veja esta frase:

Viajarei amanhã

Se um professor da língua portuguesa escrever no quadro negro esta frase e indagar a classe se nela existe algum sujeito, todos responderão que sim, um sujeito oculto (o pronome Eu ) e o professor sorridente dirá:

Muito bem, acertaram.

E o professor e os alunos irão tratar de outra lição.

Se um professor da Língua Brasileira, versado nos Métodos da Ciência Oaieme escrever no quadro negro a mesma frase e indagar da classe se nela existe algum sujeito e se todos responderem que sim e alegarem que é UM sujeito oculto, o professor sorridente dirá:

Que pena, erraram!

E a sala inteira questionará:

Mais como erramos?

E o professor solícito vai ao quadro negro dar explicações.

Mais como erramos, se a séculos a língua portuguesa através dos professores assevera que essa frase só possui um sujeito?

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Esse, será seu questionamento mais aí vai a explicação; o ensino ministrado da escola fundamental a universidade é superficial; ele ensina o que é a casca, mais não explica o que ela tem dentro nem muito menos o que é o caroço, pois é o ensino da decoreba de fórmulas que satisfaz as necessidades do sistema mais não eleva os padrões culturais ou sequer morais do indivíduo. A escola de hoje, lança diante do aluno uma infinidade de fórmulas para serem decoradas, ensina análise da substância mais não ensina a análise da essência conforme demonstração adiante

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Ao quadro negro em que a frase tema está escrita, o professor se dirige aos alunos e explica:

– Nós estamos diante de uma situação explícita em que cada um de vocês é informado por alguém através de uma frase que irá viajar. Essa situação se constitui de quatro elementos distintos; o sujeito que vai viajar, a viajem, os fatos e coisas da viagem e cada um de vocês, os receptores da mensagem oriunda da frase. Sugiro como exercício que cada um teça considerações sobre a frase e conjeturem a respeito do sujeito, sobre a viagem e os fatos e coisas encontrados.

Por alguns minutos os alunos permaneceram em silêncio mas, o aumento dos cochichos e risos fez com que o professor os interrompessem e como todos deram por findo o exercício, o professor pediu que cada um, em rápidas palavras desse o seu resultado pessoal. Após o término das explanações o professor tomou a palavra.

Vejam vocês que nenhum resultado foi igual a outro apresentado o que significa que cada um de vocês recebeu novas informações e conhecimentos. E que cada um de vocês contribuiu com uma informação peculiar além do que cada um criou um mundo próprio em que o sujeito da oração vivenciou a sua viagem cheia de acontecimentos e situações inusitadas. Esse mundo possível e domínio pessoal de cada um de vocês está contido dentro de um universo possível que está necessariamente embutido em um outro universo; um impossível para o domínio de vocês, mais sentido mentalmente por cada um de vocês.

Todos por algum tempo ficaram meditabundos mais acabaram concordando que sim e o professor continuou:

Ora, nessa situação explícita, de sujeito receptor, cada um de vocês passa a ser o sujeito observador, manipulador e criador pois para o sujeito em viajem e todas as outras criaturas inseridas nesse mundo ideado e possível de cada um, cada um de vocês é o deus de tal mundo e está muito claro que todos os componentes nesse ideado mundo são partículas da atividade inteligente de cada um de vocês.

Perplexos, os alunos atentos eram só atenção e silêncio.

E o Professor continuou:

Vejam bem que essa situação explícita que analisamos está contida em outra situação explícita; a aula que estamos vivenciando com suas respectivas matérias e particularidades onde cada um de vocês tem diante de si situações que se desenrolaram num mundo, que está dentro de um universo possível que faz parte de um outro impossível e infinito mas, raciocinado e contido dentro da mente de cada um de vocês. considerando essa experiência vivenciada por vocês nesta sala de aula e o discurso dos teólogos e filósofos, que tal considerar e conjeturar sobre a existência ou não de Deus?

O Professor deu a aula por encerrada lembrando no entanto que todos deveriam trazer dicionários na próxima aula e os alunos se foram entre conversas e sorrisos mas, um observador atento, notaria um estranho brilho no olhar de cada um

Claro e evidente que para fecharmos o raciocínio há de se falar da tal próxima aula e no ensejo, dela, aí está o ocorrido:

A sala estava repleta e a expectativa de mais uma aula da Língua Brasileira gerou um falatório chamando a atenção dos que transitavam para lá e para cá nos corredores. Nem bem chegando, o professor após rápidos cumprimentos, dirigiu– se ao quadro negro e escreveu a frase, assunto da outra aula passada, em letras de forma e em seguida elaborou um quadrado formado por dezesseis quadrados menores onde aplicou em cada um, uma letra da frase conforme o demonstrado adiante:

VIAJAREI1

Notem que nossos olhos bailam para lá e para cá dentro da frase e sentimos dificuldade em a partir das letras formar novas palavras o que não acontece na quadratura inserida na circunferência adiante porquê ela está matematicamente situada e congelada no centro de nosso campo visual onde nossa atenção é fortemente acentuada o que nos permite perceber ou identificar novas palavras a partir da frase dada com maior facilidade.

Observem estas quadraturas dentro das circunferência :

viajarei.1

deus.1

Notem que na primeira e na segunda , as Quadraturas demonstram a aparência de estarem congeladas e o sentido periscópico de nossos olhos, imóvel, permite que se sinta e se raciocine sobre todo o conteúdo das Quadraturas e suas funções., o que nos enseja a formação de sílabas no sentido vertical e horizontal possibilitando assim a elaboração de palavras com maior rapidez.

Após dar as devidas explicações sobre as circunferências e seus conteúdos e sentindo o entender de todos o Professor sugeriu;

O exercício a ser efetuado será esse: com ajuda de dicionários, vamos extrair o maior número possível de palavras da Quadratura, tentar formar frases e depois tentar formar um texto. Existem letras na Quadratura que estão no início e no meio de várias palavras e muitas delas não se repetem na Quadratura e a denominaremos de Letras Áureas. Podem formar o maior numero possível de palavras porém, obedecendo o quantitativo das letras dobradas

Exemplos:

Podemos a partir das letras da Quadratura escrever a palavra VARA porque temos a disposição cinco letras A, mais não podemos escrever a palavra MAMÃE porque só existe um M na Quadratura. Podemos escrever a palavra VIAJEI porque temos a disposição duas letras I mais não podemos escrever a palavra VEREI porque só temos a disposição uma letra E. como podem notar, as letras que dão inicio as palavras contidas na quadratura, obedecendo a sua localização na frase são: V,I,A,J,R,E,M,N e H. Para facilitar e acelerar o trabalho de pesquisa, sugiro que formem grupos mais quem quiser optar pelo trabalho solitário pode fazê-lo. como a maioria das palavras que encontrarão nos dicionários não são do conhecimento de vocês, será ótimo que se anote pelo menos as propriedades das palavras encontradas pois delas e do seu significado na certa não se esquecerão facilmente.

Três alunos resolveram trabalhar isoladamente, mais depois de algum tempo sentiram as dificuldades da pesquisa solitária e trataram de se inserirem em algum grupo de estudo.
Os grupos, depois de algum tempo deram os trabalhos por encerrados e um aluno escolhido elaborou no quadro negro o rol das palavras encontradas.

E as palavras encontradas foram essas:

VÁ – À – VARA – VAREJA – VAREJAI – VEM – VÊNIA – licença – VENHA – VÊ – VER – VERÁ – VIAJAR – VIAJAM – VIAJEM – VINHA – VIME – VIR – VIRIA – VIRÁ – VIRA – VIRAM – VAIAR – VÁRIA – VEIA – VAI – VAI – índios – VAI E VEM – VEM–VEM – ave – VIA – VIAM – VINA – viola – VIRE – VIREM – VIRIAM – IA – IARA – IMANE – IMÃ – IMANAR – INAJé – índios – INVEJA – INVEJAR – INHAME – IR – IRÁ – IREI – IRMÃ – IRIA – IRIAM – IAM – IEMANJÁ – INÃ – ÍNVIA – sem caminho – A – AH – À – AI – AÍ – AIA – AIAR – gemer – AIAIA – vestido – AIARÁ – palmeira – AIMARÁ – índios – AIMARÁ – túnica – AIRÍ – palmeira – AJARé – árvore – AIÊ – festa – AJé – estúpido – AMA – AMAINA – AMAINE – AMAR – AME – AMEI – AMENA – ANA – ANAJÁ – palmeira – ANIMAR – ANIME – AVE – AJARAÍ – fruta– AMANHÃ – AMANHE – AMANHA – AMANHAR – cultivar – AMEAR – Dividir ao meio – AMEÍVA – camaleão – AMI – aranha – AR – ARE – ARANHA – ARIMÃ – espírito – do mal/mal – ARME – ARMA – AVIE – AVIAR – AVIR – conciliar – JANARÍ – árvore – JÁ – JARÁ – palmeira – JARANA – árvore – JEIRA – JAVé – JARIVÁ – palmeira – RÃ – RAIA – RAINHA – RAIVA – RAJÁ – RAMA – Ré – REANIMA – REAVIA – REI – REINA – REMA – RIJA – RAVINA – RAVANA – viola – REVIA – RINHA – RIMA – E – é – EMANAR – EMANAI – EM – ENVIA – ERA – ERVA – ENVIAR – EVA – EIA – EIÃ – macaco – MÁ – MÃE – MAIRÁ – mandiocaçu – MAIR – herói indígena – MANIVA – MANJAR – MAR – MARAJÁ – MARé – MANHÃ – MANHA – ME – MEIA – MINERVA – MIRA – MERA – MANA – MANÁ – MANEJA – MANEJAR – MANEJAI –MANEIRA – MANIA – MANJE – MARIA – MIRA – MIRE – MERA – NA – NEM –NEVA – NÍVEA – NAIA – musa – NAVE – HAJA – HAVER – HAVIA · AVERÁ

Após algumas considerações sobre as palavras o Professor devido ao horário deu a aula como encerrada avisando no entanto que na próxima, tratariam da elaboração de frases e do texto final. Na outra aula, a maioria dos alunos trouxeram frases prontas e os grupos se empenharam na elaboração do texto e depois de muita discussão foi definido um texto final que foi escrito no quadro negro e é este o seu teor:

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Era a Era a Rama (Humanidade) a Eira Mãe (a Terra) amanha e aia. Aí a Eira Mãe envia amena rima a Imane Rei.
– Vem Imane Rei e amaine a ira e a inveja na minha Eira e anime a Rama a aiar Era a Era.
E Imane Rei vê a Rama na Eira Mãe a aiar e avia Imane Nave e virá.
– Aí vem Imane Rei!
E vem em Imane Nave avir e amainar a ira e a inveja na rinha, na área, na eira e na Rama a Eira Mãe.
Javé Arimã, a Ave Má reina Eira Má e vai e vem, Era a Era a invejar Imane Rei e na raiva avia e amanha a inveja e a ira em rinha a rinha, em área a área em eira a eira e aí Eiã Ajé e Eva Vã vira mania na Rama a Eira Mãe. Aí Imane Rei já vem e envia Iaiá Minerva e envia amena Rima a Eira Mãe.
– Vim ver minha Rama na Eira Mãe e vi minha Rama a Mair e a Rama a Iemanjá a amanhar inhame, aiará, anajá, janarí, jar jarana, jarivá, mairá e maniva e nem me viram. MInha Rama na Eira Mãe é areia na maré em mar na ira.
Na minha rama na Eira Mãe, Mãe é ama, Ama meã é mãe, a Ema é mãe e a Mãe Má em Amã me ame e minha rima é: Haverá Amã!!!
Amar a Mãe, a Ama meã, a Ema e amainar a ira na Mãe má a aiar anima Imane Rei a viajar e já, já ele virá.
-Vá Iaiá Minerva e amaine na rinha, na área, na eira, a Ira e a Inveja e anime vá avir a minha Rama na Eira Mãe a aiarem Era a Era.
-Ah!Ah! É Aiê!!! E minha Mãe a Iaiá Ave Maria virá me ver. Avia maná e manjar Inã mariana. Viajarei amanhã!
Aí Imane Rei mira Javé Arimã a Ave Má e Javé Arimã vira Eiã Ajé e viaja na ira a Eira Má já a aviar e amanhar a ré!
-Aí vem REi!!!  -Aí vem REi!!!  -Aí vem REi!!!

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amainar-abrandar, acalmar
amaine-abrande, acalme
amanha- apronta, prepara, cultiva
aiarem, aiar- gemer, soltar gritos de dor
avia- prepara
avir, aviar- irá preparar
Eiã- macaco da noite
Eiã Ajé – homem estúpido
Ama meã- dizia-se da criada de média estura e simpática, ama de leite
Amã- perdão outorgado ou concedido
Aiê- festival de fim de ano
Eira- grande terreno de uso em fazendas
Eva Vã- prostituta
Eira Má – Inferno
Eira Mãe – a Terra
Iaiá- tratamento carinhoso dado a moças e senhoras
Inã- irmã de criação da sacerdotisa, culto dos ibejis  no candonblé
Imane- muito grande, desmedido
Imane Rei – Jesus Cristo
Javé Arimã – Satã
Rama ao Rei- a Humanidade
Rama a Iemanjá- os Iaôs, a Raça Negra
Rama a Mair( heroi indígena Tupi) os índios
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Todos concordaram que o texto era de difícil execução e nele, estranha linguagem era sua característica e acontecia independente da vontade de cada um isto é, o texto em essência já existia, já estava pronto.

Era como se fosse um jogo de quebra cabeça em que alguém propositadamente misturou as peças, cabendo aos alunos apenas a tarefa de remontá–lo. Após muita discussão, resolveram com o aval do Professor, levar adiante um trabalho de pesquisa sobre o texto, onde procurariam a ajuda de Mestres e especialistas no assunto. Quando a aula já ia ser dada como terminada um aluno dirigiu–se ao Professor, como era dado a brincadeiras, toda a sala na expectativa da iminente galhofa, era toda ouvidos:

Professor, gostaria de lhe apresentar uma pequena pesquisa feita em casa.

O Professor apreensivo, mais solícito aquiesceu. Durante algum tempo de senho franzido o Mestre leu o conteúdo apresentado. Terminada a leitura, cumprimentou o aluno para surpresa de todos e pediu que ele escrevesse no quadro negro o resultado de sua pesquisa e o resultado foi esse;

A Escola:

Olá Alas! A Escola é casa ao Ala, às Alas e ao Escalão e Sol e Escol ao Ala. São elos a Escola: o Ala, as Alas, o Escalão, a Ação Sã e a Sala.

Lá a Ação é se Lê. Se a Ação Sã é ao acaso e se cola, é o caos ao Ala, as Alas, ao Escalão e ao Sol e Escol, a Escola. E se lesa o Escalão, as Alas, o Ala, a Sala, a Ação Sã e o Escalão é só lôas , as Alas é só asco, o Ala é só cão leso, a Sala é só caos, a Ação Sã é só aca, a Escola é só loca e lesa se escoa e se sela a casa

Se és Ala cão Leso e lesa a Ação Sã, és só aca e asco as Alas, ao Escalão, a Sala, ao Sol e Escol, a Escola.

Se és Ala e és aceso Sol a Ação Sã, és Áleo Leão e alas o Escalão, as Alas, a Ação Sã, a Sala, a Escola, e és Escol ao Áleo Sol !

Alô ! Alô ! Alas; só a Ação Sã ala e escala o Ala, as Alas e a Escola ao Escol e ao Sol !!!

Os alunos perplexos, liam e reliam o texto quando o Professor chamou o rapaz e perguntou como tinha elaborado o trabalho e ele respondeu sorrindo:

– Viajando Professor, viajando… isto é, raciosentindo…

– Viajando ? Raciosentindo?

Todos sorriram e o aluno pressentindo que sua resposta insinuava ao Professor uma « viagem» proporcionada pelas drogas foi enfático:

– Professor, a pesquisa de palavras, a confecção de frases e as tentativas de elaboração do texto, nos levam a experiências mentais incríveis das quais nós temos o pleno domínio e conhecimento o que não acontece com experiências mentais a custa de estimulantes. Sem dúvidas Professor, a Ciência Oaieme nos ensina a raciocinar e a sentir.

O tom sério das afirmações do aluno galhofeiro surpreendeu os colegas e o Professor extenuado pela aula ministrada mais muito feliz, deu a mesma por encerrada sem não antes responder ao questionamento de uma aluna

– Professor esse tal Oaieme tem algo a ver com as Inteligências Múltiplas?

– Hoje vocês me surpreenderam duas vezes. Seu colega e agora você. Tem sim, pois ela é o Repositório Mágico das Inteligências Múltiplas. Mais isto será assunto para outra aula que estou preparando, Podem me cobrar isso depois.

Todos foram indo embora como é de costume em grupos, mais comentando a estranha aula mágica

A tardinha, abstraído de tudo a sua volta num calçadão a beira mar, anônimo Professor admirava o por do sol ainda pensando nos acontecimentos da última aula. A escuridão da noite já sufocava as ultimas reverberações no horizonte marinho quando ele de súbito confidenciou aos ares;

Não posso mudar o Mundo e muito menos as pessoas, mais eles se modificarão nas atitudes, vão contagiar as pessoas e quem sabe até reestruturar esse paraíso imenso, quase em destroços.

A noite a tudo cobria com seu escuro manto e o Professor a passos lentos se pôs a caminhar em direção de seu lar. Nesse instante, o sentido periscópico da minha tele mental visão que a tudo assistia, estacionou e meus olhos cansados deixaram que as pesadas pálpebras se cerrassem e aí então, adormeci em sonhos.

 

**** Fim.